Domingo, 28 de Outubro de 2007

Crise do trabalho e crise do politico

Gabrielle Balazs e Michel Pialoux*

 

 

Novas formas de dominação simbólica vieram redobrar as antigas formas de exploração. Os assalariados sentem-se numa situação de vulnerabilidade objectiva e subjectiva e trabalham na incerteza, por eles próprios e pelos seus filhos. A ameaça do desemprego e da precariedade pesa sobre o conjunto dos assalariados e, mesmo se as mulheres, os jovens e os operários são os mais atingidos, todas as categorias de assalariados temem perder um dia o seu emprego. A pressão do desemprego exerce-se sobre aqueles que trabalham não somente corrigindo por baixo as suas exigências em relação ao trabalho, mas igualmente aumentando a sua carga de trabalho. A generalização da electrónica, da informática e das exigências de qualidade que se acrescentaram aos imperativos de produtividade exigiram de todas as categorias assalariadas novas aprendizagens. Ao sentimento de indignidade dos operários [OS, i.e., ouvriers specialisès] vieram somar-se, com as técnicas da «gestão participativa», o temor de não estar à altura daquilo que é exigido e o sentimento de se tornar incompetente («agarraram-nos pelos colhões»). A imposição do modelo do técnico, cujo símbolo é o domínio da electrónica, estende-se inclusive à escola: nas escolas profissionais, por exemplo, a palavra operário não é mais utilizada, não falamos senão do técnico. A exigência do autocontrolo, do envolvimento dos assalariados estendeu-se bem para lá dos empregos dos quadros. Ao introduzir a avaliação permanente numa situação de forte concorrência a todos os níveis da produção, com os consultores, os especialistas e os auditores, ao mesmo tempo que se mantinham as formas clássicas de aumento da produtividade, mas estilhaçando as solidariedades, nomeadamente pela introdução dos prémios, o patronato produziu o sobreinvestimento e novas formas de trabalho na urgência, não somente nos lugares de responsabilidade, mas também nos postos subalternos.

Para compreender, é preciso invocar a história e maneira como certos «ajustamentos» que foram constituídos ao longo do tempo estão em vias de se desfazer, por vezes com uma extrema brutalidade. É nesse sentido que podemos falar de uma crise da herança que assume múltiplas formas: a crise da herança operária, num espaço social em curso de reestruturação, à desilusão politica e à crise da militância; podemos sem dúvida falar também de uma crise da estratégia patronal que obriga a inventar sem cessar novas formas de gestão da mão-de-obra e novas técnicas de direcção. As oportunidades de promoção social, individual e colectiva, a esperança de mudança politica, foram-se desmoronando. O enfraquecimento do grupo operário, a sua quase impossibilidade a reproduzir-se impedem a reprodução das antigas formas de visão politica que contribuíram largamente a unificar as reivindicações e a superar as lutas categoriais. Mas nada pode prever quais serão as manifestações concretas de uma vontade de resistência que ressurge sem cessar sob formas particularmente complexas.

Nós procuramos romper aqui com a visão gestionária e tecnicista das relações sociais na empresa e igualmente com a tendências dos especialistas a autonomizar a esfera do trabalho. Procurar somente pensar os «efeitos» sociais das mudanças tecnológicas ou económicas conduz a subestimar as outras transformações, em particular as condições nas quais, em diferentes momentos do tempo, a situação escolar, social, politica se apresenta para os diferentes grupos sócio-profissionais. Sem ignorar as problemáticas dominantes dos anos 80, marcados pelo economicismo, e centradas sobre a dinâmica da empresa e do sistema económico, procuramos inscrevê-las em problemáticas centradas sobre os grupos sociais: propomos que se considere a morfologia dos grupos sociais, bem como a construção das disposições dos indivíduos e das condições sociais nas quais essas disposições podem engendrar-se. Dedicamos uma atenção particular à dissemelhança de ritmo entre as transformações técnicas e organizacionais que os gestores impõem em nome dos imperativos da rentabilidade e os habitus e as visões do mundo dos assalariados, matriz das lógicas práticas de resistência. As temáticas sobre a robotização e a automatização em torno das quais se organizam os debates político-científicos puderam contribuir para mascarar os fenómenos de deslocalização e o crescimento da produtividade na sua forma brutal. A análise das relações com o corpo, postas em relação com as transformações da escola, fez aparecer as lutas na sua complexidade, relações de força não teorizadas – e não teorizadas politicamente -, como a luta em torno do rádio na oficina, a recusa do tratamento pessoal, a recusa do desprezo.

 

[Tradução de Bruno Monteiro.]

publicado por pcpdiagonal às 14:44

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