Quinta-feira, 1 de Novembro de 2007

Diário incerto - A realidade do trabalho precário na primeira pessoa

Bruno Monteiro*

 


Setembro. Sexta-feira de manhã. À mesa do café, folheio o jornal e sublinho potenciais oportunidades de emprego. Num dos cantos da folha: «Porto//10 Teleoperadores//M/F//4h/dia – Ordenado-base fixo mais prémios». A fechar, apresentavam-se dois números de telefone. Mal atendem, pergunto se ainda aceitam candidaturas. «Sempre». Ditaram-me uma morada e mandaram-me aparecer nessa tarde para a entrevista. Nos dias seguintes o anúncio continuaria a surgir frequentemente, oferecendo os mesmos dez empregos.

 

A entrevista

 

            16h25m. Estou à porta de um desses blocos de escritórios, prematuramente envelhecidos, que no Porto se construíram há 30 anos atrás. No hall de entrada, além das referências a alguns consultórios médicos e de uma mesa vazia, ninguém. Subo até ao quinto andar. Vem à porta uma mulher com cerca de 40 anos, que se apresenta como «coordenadora de divisão». Enquanto ela me vai buscar uma ficha de candidatura, espero sentado atrás de um biombo. Atrás, numa sala sobreaquecida, há um rádio nas alturas sintonizado na Cidade FM e algumas raparigas, com pouco mais de 20 anos, agarradas ao telefone a debulharem «obrigados» e «boas-tardes».

Nas costas da minha folha de inscrição, a D. Marília prontifica-se a desenhar-me o esquema que resume todo o universo deste trabalho. Tenho a impressão de estar a ouvir um texto há muito decorado e já infinitamente repetido. «Aqui, tens base fixo de 225 euros. Trabalhamos 6 dias por semana, em três turnos, de quatro horas cada. Qual o horário que corresponde á sua disponibilidade? [proponho fazer o período das 17 às 21] Muito bem. Depois pode, em função dos resultados, receber mais. Aqui temos uma semana de formação, à experiência, onde vemos se vale a pena manter aqui a pessoa. Somos uma empresa que investe muito em formação, não queremos perder dinheiro, nem empatar ninguém. No fim dessa semana, se a pessoa acabar a semana a trabalhar, querendo, fica. Ou então, vai à vida dela.» Esforçava-me por acompanhar o discurso e por fixar as palavras o melhor que podia, mas não me atrevia a interromper. Ela continuava, destemida. «Pagamos sempre ao dia 20 desse mês. O que ganhar em Outubro, recebe dia 20 de Novembro. A forma de pagamento é o recibo verde. Percebeu?» Confirmo com a cabeça que sim e pergunto quando saberei uma resposta. Ela esboça um sorriso. «Segunda-feira vem e faz a formação. Depois vemos. Também é só uma hora! Pode ser?» A D. Marília tinha-se, entretanto, levantado e já me estendia a mão. Repito o percurso inverso; chego cá baixo e olho para o relógio: 16h37m.

12 minutos. Demorei uma dúzia de minutos a ser sondado e contratado para trabalhar como operador de telemarketing. Aqui as vocações descobrem-se rápido. Mentalmente, jogava com os números: 225 euros, 88 horas por mês. Agora, uma subtracção: descontados os impostos – se não contarmos com a isenção de primeiro ano para os debutantes do «recibo verde» - sobram 177 euros e 75 cêntimos, pouco mais de dois euros por hora. Os prémios, esses, dependiam do número de respostas positivas que tivessem as nossas investidas telefónicas e, presumivelmente, das nossas capacidades de seduzir ou «agarrar» o incauto que nos atendesse o telefone.

 

A formação

 

À entrada, encontro desta vez uma rapariga que parece tentar acertar no painel com a campainha correcta. Vejo na sua mão um post-it com uma morada manuscrita. Pergunto-lhe se vem para a entrevista, diz-me que sim; carrego no botão correcto. Abrem a porta e pedem-nos para aguardar, eu pela formação, ela pela entrevista. Joana M., vinte e nove anos, está a tirar um mestrado na FPCEUP e procura «uma ajudazinha» para suportar as despesas. Enquanto conversamos, chega João V., vinte e quatro anos, estudante de uma privada. Ambos viram, como eu, o anúncio no jornal. Ambos me perguntam imediatamente quanto é que pagam. Joana, que já trabalhou dois anos na Irlanda a receber de ordenado 14oo euros por mês, lamenta esse «pouquinho». «Aqui é tudo assim. E a gente precisa, tem que arranjar de alguma forma…» O próprio carácter provisório parece jogar a favor da aceitação do compromisso com um emprego temporário e mal pago. É para um «desenrasque» e, além disso, é «o que há». Não consigo dizer se João está resignado ou indignado. «Mal entre, vou logo perguntar isso [o ordenado]. É a primeira coisa que vou perguntar. Se for esse ordenado, tou fodido. Já andei aí um ano inteiro como vendedor porta a porta, a tirar 60, 80 contos por mês, sei bem como isto é. Andava pa caraças, d`um lado para o outro, e o pessoal “não quero”, “não tou interessado”… Isto não deve ser muito diferente, só que é ao telefone.»

Sou recebido por uma outra mulher que me faz sentar na primeira linha de mesas da sala. Entrega-me o «script» que devo decorar. Explica-me que o que aqui se faz é «convidar as pessoas a conhecer a empresa e levantar os prémios a que têm direito». «Não tem que se preocupar com mais nada.» A mim também não me apetecia indagar a natureza do que ali se fazia. «Se forem casais, mande participar todos os que têm alguém com idade entre os 29 e os 73 anos. Senhoras sozinhas, só as que tiverem entre 35 e 73. Homens sozinhos, agradece, mas não convida. [Não resisto a perguntar porquê] Porque, entre outras coisas, vão para ali meter-se com as miúdas… Jamais mandar participar solteiros ou divorciados! Agora vai aprender a trabalhar a lista. Não ligar a empresas. Explica sempre que não é para dar dinheiro. Não diga palavras caras, fale rápido e simples. Se falar demais vai-se entalar. Não diga okey por favor. Compreendeu?»

Passam-me pela cabeça todas as vezes que um desconhecido me ligou para casa a oferecer-me um prémio no valor de centenas de euros ou a desafiar-me a redescobrir a felicidade. Repito todas as objecções que me lembro de ter feito. A minha formadora esboça um enorme sorriso. «Tem de ser paciente. E ter muita atitude! Tá a ver isto? [mostra-me uma folha de papel encabeçada pela palavra «OBJECÇÕES»] Aqui está o que tem que dizer. “Ah, já fui enganada…” E o senhor: “Foi aqui? Veja bem, se for a um restaurante e for mal atendida, deixa de ir comer fora? É lógico que não! Continua a ir aos outros, não volta é a esse. Agora diga-me se a nossa empresa tem de pagar pelos erros dos outros. Não seria justo, pois não?” Tá a ver? Tem aqui tudo.”Não acredito…” “Não acredita, porquê? Não gosta de prémios? Faça como São Tomé, venha ver para crer.” Tá a ver, sempre que lhe disserem alguma coisa, reverta isso a seu favor. “O quê minha senhora? Está a brincar com o meu trabalho? Olhe que eu sou sério”. Compreende?» Na cara um sorriso sabido.

«Tem de saber ouvir a pessoa e responder só aquilo que ela perguntar. Volte sempre à carga. Dê muita força às suas palavras. Se não, acha que vai convencer alguém? Se lhe disserem que “não” isso é óptimo. “Não, não, não”, mas a verdade é que estão ali a ouvi-lo. Só os que desligam logo é que não há nada a fazer. Encoste a pessoa à parede. “Posso de certeza absoluta contar com o seu telefonema?” De certeza absoluta [carrega o tom], percebe? Não o quero é como pedinte! Não peça nada, não implore. Ao telefone, um pedido é uma ordem. Sou eu que ligo, sou eu que comando! E tem de fechar com chave de ouro. Dá o seu nome e trata também logo a pessoa pelo seu nome, que elas gostam disso, e confirma se têm um lápis e um papel onde apontar o número para que têm que ligar.» O vocabulário bélico devia estar a assustar-me. «Não fique assustado. Agora vai dizer isto que está aqui escrito na folha. Vamos lá, para eu ver como o senhor se comporta.»

Adoptando a entoação mais persuasiva que conseguia, comecei: «Muito boa tarde, estou a falar com … O meu nome é Bruno Monteiro e estou a ligar-lhe da empresa Multiofertas, que é uma empresa de sondagens telefónicas. Desde já dou-lhe os meus parabéns por ter atendido o telefone! Devido à inauguração de uma nova filial no Porto acaba de ganhar um prémio no valor comercial de 400 euros e um pequeno electrodoméstico à sua escolha dentro da gama que temos ao dispor.» Parei para respirar; dissera tudo num só fôlego. Faz-me repetir tudo novamente. «Ênfase nos prémios, ênfase nos prémios!» Depois, uma a uma, as respostas às objecções. «Agora vai para casa e vai ler isto muito bem.» Ainda antes de nos despedirmos, haveria de me garantir que «se fosse muito bom», passaria a atender os «up`s». Parece que se trata de uma espécie de promoção.

 

O trabalho

 

            Uns minutos antes da hora combinada, faço soar a campainha. Sentar-me-ei doravante na última fila de mesas. Explicaram-me sumariamente como utilizar o telefone e como colocar na cabeça o auricular. Passei a trabalhar com uns recortes da lista telefónica, mais ou menos rabiscados por outros operadores. Pronto - começar. Carlos, Carmelinda, Carolina, Celestino, Célia (2x), Cátia, Cláudia, Cléa, Conceição (2x), Corina, Cremilde, Crispim, Cristina (3x), Custódio. Seguia escrupulosamente a ordem da lista telefónica. Finalmente atendem quando chego a David. Repito o «script» da forma mais natural que consigo. Ouviram-me até ao fim; não quiseram nada e acabaram por desligar. Olho para o relógio: tinham passado dez minutos. Na próxima hora, havia de digitar 56 números de telefone. Desligados, inexistentes, ausentes, falecidos, doentes – aparecia de tudo. Tocava quatro vezes e desligava, era esta a exigência que me faziam.

Aos que atendiam, repetia a mesma lengalenga, vez após vez. Havia quem alegasse que a pessoa procurada não estava em casa e que só voltaria no mês seguinte – mas sem conseguir abafar os risos. À medida que debitava o texto, sentia a antipatia das pessoas crescer, até que acabavam por explodir num rol de insultos acerca de eu ser um «vigarista», um «chulo», que só pretendia «dar-lhes baile». «Olhe senhor, já tive muitas desilusões com estas coisas. Muitas, muitas! Até acho que deviam ser proibidos estes telefonemas!» E eu a alegar que isso poderia ser assim com todas as empresas, menos com esta. «Sabe, tenho 58 anos, deu-me uma depressão, tou em casa sem poder fazer nada. O prémio que me deram a mim, dêem-no antes a outra pessoa.» E eu a garantir que era precisamente o prémio que lhe estava endossado pessoal e intransmissivelmente. Outros desligavam mal lhes falava em «sondagens», em «prémio» ou «parabéns». Sobretudo estas palavras pareciam susceptibilizar os meus ouvintes. Havia quem adiasse o fim da conversa, empatando-me com perguntas e sugestões veladas até que a coordenadora me mandava «fechar». «Bruno, tem de ser sempre a mexer. Se as pessoas o estão a empatar, diga logo que tem que trabalhar.» Finalmente – três por dia na minha modesta contabilidade –, lá surgia alguém que garantia ligar de volta. Destes, só um ligaria efectivamente – e era o único a contar para o meu objectivo semanal.

A música ajudava a descomprimir; dei por mim uma ou outra vez a bater o pé no chão. Na mesa ao lado, Cristiana e Maria mantinha a conversa nos breves segundos que tinham entre cada telefonema. Enquanto o telefone toca, falo eu; atendem, calo-me; toca o teu telefone, falas tu; atendem, calas-te. As minhas colegas garantiam ininterruptamente a quem lhes atendia que era «um dos dez seleccionados» para um prémio. Virada para nós, a D. Marília desfazia-se em incentivos, em correcções e em reprimendas. A ventoinha aliviava o calor excessivo da sala. Durante a última hora de trabalho, eu já implorava que não atendessem o telefone. Estava esgotado. Quanto à rudeza de algumas pessoas, já não me fazia mossa – era somente mais um contratempo para o qual existia a mais elementar das respostas pré-fabricadas: desligar o telefone. Tornei-me capaz de repetir um texto entretanto decorado enquanto passava os olhos pela sala ou ouvia indicações. Melhorou também a minha capacidade de improviso e, penso eu, a naturalidade do meu discurso. Percebi também que cada operador acaba por desenvolver um estilo pessoal. Por exemplo, há quem acrescente a palavra «inquérito» a «sondagem», julgo eu que para beneficiar indirectamente da maior credibilidade daquela.

            Está mais do que documentada a elevada mortalidade profissional destes empregos. Bem como a adesão distanciada e episódica que normalmente suscitam. O que não significa que estes sejam locais de trabalho estéreis do ponto de vista humano. Não estão ausentes os investimentos e relações pessoais. A convicção de ser uma situação provisória inibe, é certo, a contestação e cimenta a ideia de que este é um estádio transitório incontornável inscrito no percurso «normal» de quem trabalha para sobreviver. A compulsão combina-se perfeitamente com opção táctica na escolha de um part-time em que é relativamente fácil ser contratado e ganhar algum dinheiro. Lógica que parcialmente explica como todos os dias se refaz um segmento de emprego periférico, para não dizer subterrâneo. Por tudo isso, importava proporcionar uma definição ostensiva destes trabalhadores, que os mostrasse como eles são e, pelo menos, assinalasse a necessidade de os resgatar do silêncio. No último dia de trabalho, só pensava que no dia seguinte não teria de voltar ali. Mas a verdade é que esta não é uma real possibilidade para muita gente.

 

*: Uma versão deste texto foi publicada na edição de Outubro do Jornal Universitário do Porto. A sua publicação enquadra-se na criação de um espaço de debate e reflexão em torno ao universo laboral que enquadra os desafios e contributos teóricos extraídos dos trabalhos (não explicitamente concertados) de Michel Pialoux, Michael Yates, Michael Burawoy e de tantos outros.

publicado por pcpdiagonal às 12:09

Link do post | Comentar | favorito

.::Pesquisar neste blog

 

.::Janeiro 2008

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
15
16
17
19
20
21
22
23
25
26
27
28
30
31

.::Posts recentes

.:: Sobre a Segurança Social

.:: Educação e Cultura

.:: O medo e a burla

.:: O referendo

.:: Governo beneficia grupos ...

.:: Prenda de Natal

.:: Premiando falas «gratuita...

.:: África, Dependência e Dív...

.:: O Trabalho e a contra-ofe...

.:: Jantar Convívio do SINTEL

.:: Quando omitir é informar

.:: Da democracia

.:: POLÍTICA PARA O LIVRO E A...

.:: POLÍTICA PARA O LIVRO E A...

.:: POLÍTICA PARA O LIVRO E A...

.::Arquivos

.:: Janeiro 2008

.:: Dezembro 2007

.:: Novembro 2007

.:: Outubro 2007

.::Links