Domingo, 4 de Novembro de 2007

A vida que escondem os números

Isabel Branco*

 

Serão os trabalhadores transparentes? A pergunta poderá parecer ridícula, mas, à luz do que se publica na comunicação social portuguesa, torna-se pertinente. Nos jornais, as questões laborais são remetidas para as páginas de Economia e, em geral, são tratadas como reflexo de números e taxas, seja de desemprego ou de produtividade. Mesmo as notícias de greves (dentro e fora do País) são publicadas naquela secção e o mais comum é a peça desenvolver abundantemente as consequências do protesto para os utentes e omitir por completo as razões que levaram os trabalhadores (por vezes milhares de pessoas) a decidir aderir à greve e assim ver diminuir o seu salário do mês e muitas vezes pôr em risco o emprego. Nada disso é referido. As pessoas são relegadas para trás dos números e acabam por ser ocultadas por estes.

No entanto, a componente mais rica e interessante da sociedade são as pessoas. O homem e a mulher comum, aquele que leva a vida considerada banal, mas que muitas vezes se revela especial. É o motorista que transporta diariamente milhares de utentes e vela pela sua segurança entre a partida e o destino. É o professor que partilha os seus conhecimentos de forma pedagógica para que os alunos aumentem os seus conhecimentos de dia para dia. É o operário que usa corpo e mente para produzir os objectos que tornam o quotidiano de todos mais funcional. Todos eles têm histórias para contar, pequenas ou grandes, mesmo que para o protagonista possam parecer banais.

O que sente um operário quando vê o produto que ajudou a criar a ser utilizado? O licenciado tem melhores condições de trabalho ou teme igualmente a precariedade? Tudo isto são questões que interessam a um jornalista – mesmo que não importe à comunicação social em geral –, porque têm vida dentro delas. O melhor de tudo é que é a vida real, imbatível pela ficção, mesmo que pareça inverosímil, como já no século IV a.C. dizia o grego Aristóteles.

O interesse está aí: conhecer melhor e compreender o mundo real através das pessoas reais. Isso pode fazer-se essencialmente através de duas maneiras: observar e ouvir o que os outros têm a dizer sobre si, sobre a sua experiência e sobre o ambiente em que vivem. E, claro, porque não há que desprezar os já referidos números, avaliar a dimensão de determinadas realidades pelas taxas e outros valores de referência. Mas, acima de tudo, conta a palavra, a que se diz e a que se ouve. E o olhar, o do jornalista sobre o outro e o do outro e tudo o que revela.

Tudo pode mudar nesse processo. A visão do mundo, o desmoronar de preconceitos, o aprofundamento do saber, mesmo daquele que pensamos pertencer ao conhecimento comum. Ou perceber como o banal é importante e como, afinal, não é de forma nenhuma desprezível. Muda no leitor e muda no jornalista, ele próprio transportado para uma dimensão nova e desconhecida.

 

*: Isabel Branco é jornalista. Foi nesta condição que publicou «Retratos do trabalho» (com fotografias de Jorge Cabral). Numa altura em que toda a gente parecia afadigar-se a discutir artigos e alíneas do Código do Trabalho, foi assim recuperado para o primeiro plano do debate aquilo que precisamente nunca daí devia ser retirado: os trabalhadores. «Quem são os jovens trabalhadores portugueses? O que fazem nas suas profissões? Quais os seus direitos? Que salários recebem? Quais as consequências das condições de trabalho no seu quotidiano?» Estas questões figuravam a encabeçar o artigo de abertura desta série de retratos. A infeliz actualidade dos dramas e dilemas que aí se descreve, além obviamente da pertinência desta abordagem jornalística, compelem-nos a reproduzir os textos publicados outrora pelo Avante!, agora com uma introdução da própria autora.

publicado por pcpdiagonal às 10:14

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