Segunda-feira, 5 de Novembro de 2007

Violências gratuitas (2) - Promiscuidade Gratuita e o português que a procura

João Roldão

 

Os portugueses que recebem nas mãos um gratuito encontram-se nas mais diversas tarefas quotidianas. Há os que caminham atarefados depois da seca do metro, os que suspiram desesperados dentro dos respectivos automóveis, os que o acolhem de bom grado para acompanhar o café da manhã ou os que entram nas faculdades para mais um dia de estudo. Há ainda o português que busca desefreadamente gratuitos. Aquele que se aproxima dos carrinhos de mão, tira um jornal de cada e guarda-os na mala com a mesma rapidez que os tirou dos carrinhos. Aquele que no autocarro tem de salivar os dedos para conseguir tirar das saquetas os diferentes pasquins expostos enervando ao mesmo tempo toda uma fila que o sucede. É talvez a pensar neste género de português, que os jornalistas do Destak se inspiram para escrever. A 30 Outubro, com direito a menção na capa revela-se que o «Inventor do LSD é considerado o maior génio vivo». Taxativo. Indesmentivel. Lendo o conteúdo fica-se a saber que Bill Gates e Osama Bin Laden estão igualmente na lista dos mais geniais seres humanos, empatados no quadragésimo terceiro lugar, e que Dalai Lama e Steven Spielberg estão presentes no top50, ainda que dos outros quarenta e cinco génios nem uma linha. A cereja vem no fim: o estudo reflecte a opinião de apenas alguns milhares de britânicos inquiridos. Convenhamos, a construção tem alguma classe. Viramos a página e continua o mundo real - «Foi encontrado na Islândia o animal mais velho do mundo, uma ameijoa que se estima que tenha cerca de 410 anos» e «A altura condiciona a qualidade de vida dos portugueses». Sempre em cima dos acontecimentos estes jornalistas do Destak. 

Mas não detém a patente. Abra-se o METRO de 2 Novembro. «43,8% dos 4769 funerais realizados até Setembro deste ano foram cremações». Apetece-me acrescentar, ou seja 2088,822 funerais. A notícia é ainda mais surreal se atendermos ao facto de ser só um título. Na capa do jornal, encontra-se um belíssimo exemplar de jornalismo de investigação. «Os casos de violência nas escola continuam a beneficiar de um clima de impunidade, revela uma investigação do semanário Sol a que o Metro teve acesso» pode-se ler. [Espera aí, mas o Sol não sai amanhã?...] E prossegue, «No entanto, como o Sol apurou..» [Um fenómeno de dupla identidade?]. As dúvidas dissipam-se no final, com o despudorado «o trabalho, a publicar na edição de amanhã do Sol...». Promiscuidade gratuita.

 

«Violência Gratuita» passa em revista a (des)informação que se oferece – literalmente – nas ruas.

publicado por pcpdiagonal às 14:09

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