Domingo, 11 de Novembro de 2007

Irracionalismo e fascismo

Carlo Frabetti*

 

Creio que não se concedeu a devida importância ao facto do presidente de um país supostamente civilizado e à cabeça da investigação científica mundial apoiar publicamente o «criacionismo» (ou a denominada «teoria do desenho inteligente», que mais não é que a tentativa obstinada de actualizar o mito de Adão e Eva).

A evolução das espécies é algo tão provado como a esfericidade da Terra, e somente a ignorância mais supina e o irracionalismo mais obtuso (ingredientes básicos do fundamentalismo judaico-cristão) podem negá-la ou pretender que existam outras igualmente verosímeis explicações para a biodiversidade e a origem do homem. Propor o «desenho inteligente» como alternativa à evolução equivale a dizer que o modelo copernicano é somente uma das possíveis interpretações do Sistema Solar, e que o modelo geocêntrico de Ptolomeu tem o mesmo direito de ser ensinado nas escolas.

Que Bush não prime exactamente pela sua inteligência, é algo que ele próprio se encarrega de demonstrar todos os dias; contudo, não é possível que todos os seus assessores sejam tão estúpidos como ele. Algo tão grave como o questionamento oficial do darwinismo não pode ser um mero equívoco. É algo de muito pior: é uma aposta deliberada no irracionalismo. E uma aposta muito forte, um autêntico ataque contra a razão, como quando Millán Astray, expressando melhor que ninguém a essência do fascismo, gritou «Morra a inteligência, viva a morte». Um grito de terror e desespero (ao fim e ao cabo, um fascista não é mais que um burguês assustado), um grasnido de pássaro necrófilo, como disse Unamuno; porque a razão é a morte do fascismo, e a morte a sua única razão.

Se aceitarmos uma falácia, aceitámo-las a todas (se dois e dois são cinco, eu sou o Papa: 2+2=5, logo 2+2=2+3, logo 1+1=2+1, logo 1=2; o Papa e eu somos dois, mas como 2=1, o Papa e eu somos um, logo eu sou o Papa).

Se a presença de fósseis não confirma a evolução das espécies, a ausência de armas de destruição massiva não desmente que o Iraque seja uma ameaça para a segurança dos Estados Unidos. Se as evidentes cadeias darwinianas são questionáveis, a evidente cadeia de causas e efeitos que relaciona a mudança climatérica (cujo principal responsável são os Estados Unidos) com a proliferação de furacões também se pode questionar. Há um Deus bondoso que faz com que as flores cheirem bem e as maças sejam comestíveis. Há umas forças do mal inspiradas pelo diabo que é necessário combater arrasando países inteiros, espoliando, assassinando, torturando, violando… E há furacões cada vez mais violentos e devastadores porque os desígnios do Senhor são inescrutáveis.

A verdade é revolucionária, e por isso os fascistas (da mesma forma que os sociais-democratas, os pós-modernos, os relativistas…) não a toleram. Para o poder, a ciência é imprescindível como instrumento de dominação, mas tem um inconveniente: procura sempre a verdade (e às vezes encontra-a), desmascara os erros e as falácias, descobre as relações entre causas e efeitos… Por isso, o fascismo tem perante as ciências a mesma atitude que perante as massas: precisa delas e cultiva-as, mas ao mesmo tempo teme-as e despreza-as. E quando não pode manipulá-las, procura silenciá-las. O fascismo é, em última instância, a ideologia da força (que hoje, mais do que nunca, é a força bruta do capital: por isso agora, o fascismo se auto-denomina neoliberalismo). O domínio e a sobrevivência do mais forte, quer dizer, do mais rico. Paradoxalmente, o neofascismo estadounidense, que questiona o darwinismo, é puro darwinismo social, procura impor a desapiedada lei do mais forte no único âmbito em que ela deixa de ser válida, derrogada pela razão e pela ética. A pusilanimidade das forças de segurança no salvamento das vítimas do Katrina (quer dizer, da mudança climatérica, quer dizer, do capitalismo) perante a sua eficácia brutal na repressão dos famintos, não é um paradoxo nem um equívoco administrativo: é uma opção política coerente com as «guerras preventivas» e as «cruzadas anti-terroristas».

No outro extremo do espectro ético e sócio-politico, esperança e exemplo da humanidade, os mil médicos cubanos com as suas malas preparadas para acudir em ajuda dos seus irmãos estadounidenses. Uma ajuda que o Governo dos Estados Unidos não permitirá que chegue aos afectados [pelo furacão Katrina, em Nova Orleães]. Por evidentes motivos de segurança: tal como estão as coisas, os médicos cubanos podiam salvar muitas vidas, e esse é um risco que a Casa Branca não está disposta a correr.

 

 

 

*: Carlo Frabetti é matemático e membro da Academia de Ciências de Nova Iorque. Texto publicado originalmente na edição de 9 de Setembro de 2005 no Gara (tradução de Bruno Monteiro).

publicado por pcpdiagonal às 21:15

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