Segunda-feira, 12 de Novembro de 2007

Retratos do trabalho - 4

Lídia Queirós,
professora


Em nome do ensino

 

Lídia Queirós terminou o curso de Filosofia em 1998 com média de 16 valores e recebeu um prémio da Faculdade de Letras do Porto pela nota. Hoje aguarda uma colocação que a permita fazer o que mais lhe dá prazer na vida: ensinar.

Neste ano lectivo Lídia apenas trabalhou no primeiro período, mas embora saiba que ainda pode ser colocada numa escola secundária opta por não pensar nessa possibilidade. «Devo ser a primeira na lista de espera, mas pode não acontecer nada», comenta.

Para ela, esta situação é muito difícil. «Enquanto não conquistar o meu espaço, onde possa criar laços afectivos que não sejam rompidos no ano a seguir, não me sinto realizada», afirma. E esse espaço terá obrigatoriamente de ser uma escola, que ela transformará numa segunda casa. Para isso não se importa de abrir mão da estabilidade ambicionada pela maioria dos jovens da sua idade. Comprar casa, casar e ter filhos não fazem parte dos seus planos a curto prazo porque colidiriam com a sua profissão.

«Se essa estabilidade fosse uma prioridade, então teria de abandonar a profissão. Mas eu prefiro abdicar da estabilidade que também gostaria de ter. Quando muito comprarei um carro, mas também por questões profissionais. Tenho receio de ser chamada para uma escola muito distante. E qual é a garantia de que eu seria feliz se conseguisse essas coisas? Como já sei que esta profissão me preenche, prefiro lutar por aquilo que já conheço. Prefiro adiar as outras coisas», explica.

Natural de Vila Nova de Gaia, Lídia, com 28 anos, já deu aulas em diversas escolas da área educativa do Porto.

A inconstância, a ausência de certezas e a volubilidade dos primeiros anos de profissão angustia Lídia. «É exigido ao professor que percorra o País de Norte a Sul e que ande sempre a fazer as malas. Num mês podemos estar a dar aulas no Algarve e no outro estar em Bragança. É horrível. Não é só o desgaste físico e a despesa, é também uma questão emocional. Depois não admira que os professores estejam desmotivados. Ainda por cima recebemos ordenados miseráveis.»

«Eu não faço do casamento um projecto de vida, mas há pessoas que querem mesmo fazer isso. Se até a mim custa, o que será para essas pessoas que não podem estar próximos dos filhos e do marido?», questiona.

 

A amiga Lídia

 

Lídia Queirós mantém uma relação muito próxima com os alunos, tornando-se amiga de muitos deles. Ao longo dos anos vai trocando cartas e telefonemas e por vezes até se encontra com alguns.

Para Lídia, trabalhar com os estudantes do ensino secundário «é muito bom». «Fisicamente pareço-me muito com eles e tenho de conquistar respeito logo nos primeiros dias. Temos de mostrar grande competência científica, porque aí cria-se um certo distanciamento e eles pensam: "Ela realmente tem coisas para nos ensinar." Ficam com interesse e querem logo participar. Depois é preciso uma boa dose de bom senso, porque por vezes se criam situações de conflito na sala de aula que têm a ver com coisas entre eles. Temos de mostrar muita firmeza, mas também entrar um bocado no jogo.»

Lídia criou uma técnica especial para motivar os seus alunos logo na primeira aula de filosofia do 10.º ano. Apresenta um poema do Fernando Pessoa e a letra de uma canção dos Pink Floyd, ambos sobre o tempo. Depois é só motivar um pouco a discussão. «É muito fácil entrar no debate e, como é poesia, as pessoas podem dar opinião mais livremente», refere. A seguir dá um texto filosófico de Pessoa, em que este questiona se é possível ter a certeza de que esta vida é real. «Eles pensam nisso pela primeira vez e ficam interessados. Tentam provar que isto é real, eu falo sobre os sonhos e eles perdem o pé. A partir daí, abandonam as certezas e entram no desafio das coisas por descobrir.»

A estratégia tem dado resultados. «Nunca sabemos o quanto uma aula de filosofia pode mexer com eles. Estou convencida de que a filosofia faz muita diferença na sua formação», defende.

Lídia fala com grande entusiasmo do trabalho com os estudantes. Eles são uma espécie de parceiros e de companheiros nas lides do pensamento filosófico. «É muito bom estar com gerações jovens e incentivá-las para o conhecimento e para a mudança das coisas e do próprio ser. O professor de filosofia tem uma grande liberdade ao dar as aulas e consegue mexer naquilo que supostamente interessa ao Ministério da Educação – os resultados –, mas também fazer dos alunos pessoas com mais capacidade para serem felizes: aumentar o espírito crítico, apelar à criatividade, criar controvérsia na própria sala de aula… É do melhor que há. Dá-me um prazer enorme quando eu proponho um tema e toda a gente quer debater, mesmo as pessoas mais tímidas. Quando estão a ouvir o colega a dar a sua opinião, vão pensando qual o argumento mais válido», relata.

Nas várias escolas por que passou, Lídia ficou conhecida por dar com tanta facilidade 1 valor como 20 valores no final do período. Os estudantes nunca protestaram, ao contrário dos encarregados de educação e dos restantes professores. «Os alunos vêem que a nota é justa. Parece que ganho uma admiração especial.» Alguns conselhos de turma já subiram algumas notas. «Os professores ficam desconfiados com as notas altas, mas nunca tiveram coragem de alterar. Procuro que as notas sejam muito justas», justifica.

 

E para o ano?

 

«A actividade de um professor é demasiado absorvente. É muito trabalhoso preparar as aulas, corrigir os trabalhos e pensar qual é a melhor estratégia para cativar os alunos. E, como vou mudando de escola, tenho de me ir adaptando aos diferentes manuais», diz Lídia. Vários colegas de faculdade desistiram da vida de professor e enveredaram pela carreira académica ou por profissões diferentes. Um deles entrou para a PSP.

Habitualmente Lídia tem horários de 12 horas semanais, recebendo um salário inferior ao de um professor estagiário. «Com esse horário preciso de trabalhar dois anos para contar como um ano de trabalho. No concurso fico atrás de muita gente que por acaso teve um horário melhor. Enquanto um professor não se efectivar pelo menos numa área educativa está sempre em situação de pré-carreira.»

Lídia pretende fazer um mestrado em Itália na área da filosofia. Já esteve inscrita, mas desistiu porque foi colocada como professora numa escola secundária e, se recusasse, não poderia concorrer nos dois anos seguintes. «Abdiquei do mestrado, porque queria ensinar. Agora tenho medo de recomeçar e ter de abandonar outra vez. Gostava que a minha vida passasse por diferentes países e diferentes experiências. Não deveríamos querer este espaço só porque nunca vimos outro e por ser mais confortável ficar aqui», considera.

Este mês, Lídia Queirós entregará os documentos para se candidatar ao concurso nacional. Possivelmente só em Setembro saberá em que escola leccionará. Até lá, vai torcendo para ser colocada. 

 

 

Continuamos esta semana a (re)publicação da série de artigos da lavra de Isabel Branco. Este fascículo foi publicado na edição n.º1528 de 13 de Março de 2003, do Avante!.

publicado por pcpdiagonal às 11:59

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