Segunda-feira, 19 de Novembro de 2007

De jornal em jornal, as pessoas

João Roldão

Às vezes é dificil escrevr sobre «gratuitos», as pessoas que lhes pegam parecem-nos invariavelmente mais interessantes. Neste Porto pobre e envergonhado, é ainda mais dificil. Sentimos com mais força os olhares pendurados no chão, os cigarros fumados à pressa para enfrentar o frio, o cansaço nos autocarros cheios.

Revoltamo-nos mais facilmente com os olhares ensonados das senhoras do 704 à oito e meia da manhã do que com os titulos indigestos do Destak ou com a secção de Cultura do Metro. Vamos ouvindo comentários sobre salários elásticos que vão dando para meter o pão na mesa, sobre o colega que foi despedido, sobre o pai acamado e a mãe aleijada, sobre a novela da noite anterior, sobre o frio, sobre o pé pesado do Sr Motorista. No autocarro ou no metro, os corpos encostam-se cedendo ao sono, que anestesia a vida e o pensamento.

Há um velho de muletas que entra aflito no autocarro. Traz as botas sujas e sua. São oito da manhã mas o homem sua. Está um frio de rachar e todo suado pega no «gratuito» que tem ao lado e folheia-o rezingão. Em alguns segundos percorre-o soltando depois uma expressão dorida para a janela. Estica-se como pode e fecha-se em copas, amarfanhando o jornal debaixo do sovaco.

Há uma mulher fininha e apressada que me acostumei a ver na rotina diária. Religiosamente sai da estação do metro e acolhe «gratuitos» (tal e qual, acolhe gratuitos) ao pé da esquina da rua, onde agora há castanhas quentes. Olha para as capas e parada escolhe um deles. Deita os outros num caixote com cuidado. Vira a esquina e vai à vida com o gratuito numa carteira larga e despropositada. Fininha e apressada.

Há um miúdo gordo que nunca tira o kispo. Está lá atrás a controlar. Fez uns cornos no Schumacher que está na capa do Metro que tem no colo. Tens uns phones que permitem a todo o autocarro ouvir o David Fonseca. Ao sair numa paragem invariavelmente a meio do caminho irritará todos aqueles que não conseguindo lugar sentado foram esmagados pela sua passagem. é gordo e nunca tira o Kispo, mas mal sai do autocarro abre de novo o jornal.

[Violências gratuitas]

publicado por pcpdiagonal às 14:38

Link do post | Comentar | favorito

.::Pesquisar neste blog

 

.::Janeiro 2008

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
15
16
17
19
20
21
22
23
25
26
27
28
30
31

.::Posts recentes

.:: Sobre a Segurança Social

.:: Educação e Cultura

.:: O medo e a burla

.:: O referendo

.:: Governo beneficia grupos ...

.:: Prenda de Natal

.:: Premiando falas «gratuita...

.:: África, Dependência e Dív...

.:: O Trabalho e a contra-ofe...

.:: Jantar Convívio do SINTEL

.:: Quando omitir é informar

.:: Da democracia

.:: POLÍTICA PARA O LIVRO E A...

.:: POLÍTICA PARA O LIVRO E A...

.:: POLÍTICA PARA O LIVRO E A...

.::Arquivos

.:: Janeiro 2008

.:: Dezembro 2007

.:: Novembro 2007

.:: Outubro 2007

.::Links