Sexta-feira, 30 de Novembro de 2007

Quando omitir é informar

*João Roldão

 

É um hábito fortemente enraizado no jornalismo dito de referência, mas é claramente um dado adquirido no «jornalismo» gratuito. Dar a conhecer omitindo, escondendo, não relevando aspectos essenciais. Dar a conhecer enganando, deturpando, confundindo. Informar recorrendo à superficialidade, informar por encomenda de diversas entidades, sejam elas empresas ou individuos.

O Metro é especialista neste tipo de informação do mundo moderno. Na sua edição de 27 Novembro deu-nos a conhecer um artigo entitulado Salários médios deverão subir 3,5% em Portugal. O artigo, inacreditavelmente assinado pela LUSA, é uma espécie de descrição de um estudo da consultora Mercer sobre tendências de crescimento dos salários médios em 62 países, entre os quais quase todos os da Europa Ocidental. Ficamos extasiados ao saber que o salário médio português (+3,5%) crescerá acima da média europeia (+3,4%), sendo este crescimento superior ao da Itália, Reino Unido, França, Holanda e outros . Esqueceram-se (terá sido incompetência ou competência?) de mencionar que o salário médio português é de 746€, um valor muito abaixo dos salários médios nos outros países, e muitas vezes um valor inferior ao valor do salário mínimo de outros paises! (o da Irlanda é por exemplo 1403€ e o de Espanha não sendo maoir está cada vez mais perto, cifrando-se nos 666€)  E vem-nos à memória a figura ridicula do ministro da informação iraquiano durante a ocupação americana em 2003, tentando manter a tese de que o Iraque ainda não havia sido invadido....

Umas páginas à frente o Metro anuncia aos seus leitores em letras garrafais que Metade da população foi vítima de crime. Sentiu-se um nervoso miudinho nos autocarros, metros e automoveis deste Portugal perigoso. Afinal de contas não era para menos – 5 milhões e meio de pessoas já haviam sido vítimas de crime, passe a repetição da expressão. Mesmo arrepiados, alguns portugueses resolveram ler o resto do artigo, que logo no primeiro parágrafo começava a amenizar a questão: Quase metade da população foi vítima de um crime segundo um estudo da DECO. Mais à frente ficamos a perceber que quase metade da população são afinal 40% das pessoas inquiridas no estudo. A machadada final no jornalismo de investigação é dada com a revelação da amostra: 2 362 pessoas (!!) , entre os 18 e os 74 anos, das cidades portuguesas com mais população. E eu que até já tinha pensado na caçadeira, soltei um suspiro audivel.

Brincalhão, este Metro.

 

[Violência gratuita – Quinta semana]

publicado por pcpdiagonal às 10:42

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